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24 November 2006 @ 08:46 am
 
Título: It was your life
Tradução: Isso foi sua vida
Autora: Lua
Beta reader: Lua
Shipper: Pierre/David
Fandom: Simple Plan
Censura: 16+
Gênero: dark lemon *estupro*, dark, slash, angst
Teaser: “Eu senti as duas mãos dele em minhas coxas, pressionadas contra a calça, e deslizando sobre elas. Ele apertou minhas coxas leve-me enquanto eu tentava conseguir alguma calma. O medo estava juntando-se ao desespero e eu entraria em pânico logo se continuasse assim. Eu precisava saber o que havia acontecido.”
Disclaimer: Nada disso aconteceu. Eu não ganho nada com isso e todo mundo sabe que os personagens não são meus. ^^

Capítulo II:
 
How I dearly wish I was not here
Como eu realmente desejo não estar aqui.
Everyday is like Sunday –The Smiths
 
(David’s pov)
 
Incrível como aquilo me assustou. O que ele ia fazer? Ele deu a volta na minha cadeira e sentou-se no meu colo, mas não com uma perna de cada lado como antes e, sim, com as duas juntas em um dos lados enquanto sua mão segurava-se na cadeira e a outra passeava por meu rosto.
-Você sabe que foi mauzinho, não é David? Sabe que isso não é uma boa coisa e, se você gritar agora, vai ser pior para você. –ele disse, aproximando seus lábios dos meus e olhando nos meus olhos enquanto falava.
 
Ele deslizou os dedos sobre minha pele até chegar em meus lábios e contorna-los, com calma. Ele tocou de leve em meu piercing, fazendo o lábio ir um pouco para frente.
-Sabe o que eu acho interessante em piercings de argola? –ele disse, olhando para meus lábios.
 
Balancei a cabeça, negando. Ele continuou acariciando meu lábio inferior com a ponta do dedo.
-Se você prender em qualquer coisa e puxar...rasga a pele.
 
Eu gelei. Ele ia...ele ia...Não! Doeu apenas por imaginar.
-Não...-eu disse baixinho, tentando afastar minha cabeça.-Por favor...
 
Ele segurou o metal com a ponta dos dedos, puxando-o um pouco para frente. Doeu. Fechei os olhos, esperando pela dor maior, mas ele soltou.
-Dói, não é?
 
Abri os olhos, devagar, com medo dele. Balancei a cabeça
-Você vai puxar? –perguntei.
-Não sei. Você vai tentar gritar?
 
Balancei a cabeça, negando, e ele soltou o piercing.
-Travis gritou muito quando eu puxei. –ele disse, acariciando as mexas do emu cabelo. –Ele não foi um bom menino.
 
Senti medo. Mais do que eu já sentia e desejei que ele nunca quisesse puxar outra vez.
-Eu arranquei o dele. –ele me contou, como se fosse algo que acontecesse todos os dias. –Mas não era como o seu. Não uma argola. Só que eu gosto mais de argolas.
 
Arregalei os olhos, ainda mais assustado.
-Ele gritou mais depois do que quando eu estava puxando. Eu não pensei que eu fosse conseguir tirar. Eu achei que aquela base de dentro da boca não deixaria que saísse, mas...Saiu. –ele ergue as sobrancelhas, ajeitando meu cabelo atrás da minha orelha.
Eu sentia minha respiração acelerar diretamente proporcional ao medo crescente. Ele não ia repetir aquilo comigo, não é?
-Sangrou bastante. E deve ter doído. Ele chorou, mas...o que eu poderia fazer depois?
 
Minha imaginação pintou um quadro horrível para o que ele dizia. Doía e eu tinha vontade de chorar sem que ele sequer tocasse no meu lábio.
-Devia ser ruim para beijar depois. –ele disse, beijando meus lábios de leve e fazendo com que a dor quase esquecida retornasse.- Mas ainda deve ser mais doloroso puxar quando o furo é na língua.
 
Eu queria que ele parasse de falar sobre aquilo. Estava começando a me sentir mal. Cada vez que eu imaginava o que ele dizia era horrível.
-Eu gosto de você, David. Não me faça ter que te machucar.
 
Ele me beijou, exigindo com sua língua que eu abrisse os lábios doloridos. Foi horrível. Eu tentei corresponder, mas minha boca doía. Ele se afastou, me olhando com raiva.
-Eu estava te beijando!
 
Ele segurou meu queixo e eu me forcei a beija-lo de volta, mas ainda desajeitado. Senti-o soltar meu rosto e levantar-se, bufando. Ele segurou meus ombros e acabou por me empurrar, fazendo com que eu caísse com a cadeira. Meus braços doeram muito mais do que antes e eu mordi o lábio, evitando o grito e aumentando a dor no local.
 
Meus braços doíam, amarrados quase as costas, agüentando meu peso. Eu queria
voltar para casa. Meus olhos encheram-se de lágrimas e eu solucei. Ele parecia ter raiva de mim enquanto me olhava. Meu corpo estava dolorido de ser mantido naquela posição e o mais que eu consegui pensar era em implorar para que ele me soltasse e me deixasse ir embora. Mantive-me calado, deixando as lágrimas escorrerem pelos lados de meu rosto, molhando meu cabelo. Eu ainda não entendia porque eu estava ali e apenas desejava acordar. Aquilo devia ser um sonho ruim. Só. Acorde David. Vai acabar. Eu fechei os olhos, repetindo mentalmente que tudo ia acabar bem e virei meu rosto para o lado, fazendo meu pescoço doer. Abri os olhos, percebendo contornos confusos no escuro. Parecia haver alguém ali. Forcei os olhos, tentando enxergar melhor, mas tudo que consegui foi uma ardência.
 
Ouvi o barulho de fósforo sendo aceso e virei minha cabeça outra vez, querendo vê-lo, com medo do que ele faria com fogo. Ele apenas acendeu uma vela e colocou-a ao lado da minha cabeça, iluminando um pouco o cômodo. Estranhei o fato, mas não fiz mais do que franzir a testa, confuso. Olhei para o lado outra vez, incomodado pela luz próxima e não conseguindo ver muito mais do que antes. Pisquei várias vezes antes de tentar identificar a figura estranha no ouro lado. Fechei os olhos, mantendo-os assim por instantes e percebendo que ele caminhava pelo lugar. Abri os olhos e olhei para o lado. Havia algo ali realmente, mas eu não queria acreditar que era o que eu supunha.
 
Ele estava parado próximo ao local para onde eu olhava e eu podia ver apenas seus pés se olhasse em linha reta. Ele se abaixou e tapou a figura pelo modo como parou de costas para mim, mas aquilo confirmava que havia alguém ali. Quando ele levantou, pude ver que era um garoto. Possivelmente ele deveria estar morto.Gritei, sem querer, diante daquela constatação.
-Shhh. –ele fez e eu ergui meus olhos para ele. –Ele não vai fazer nada com você.
-Quem é ele? –perguntei, me sentindo mal.
-Um garotinho que queria ajudar o irmão.
 
Arregalei os olhos, tão apavorado ou mais do que antes.
-O irmão do Travis?
-Não! Ele veio comigo da outra cidade. No fim, que foi ajudado fui eu.
-Como era o nome dele?
-Tyson. Ele tinha nove anos.
 
Eu percebi que ele olhava para o garoto, mas não pude ver se havia alguma expressão em seu rosto. Desejei saber o nome dele e me esforcei para lembrar do que a televisão divulgava.
-Você deveria conhece-lo. Ele era fantástico!
 
Abri a boca, mas fiquei algum tempo sem dizer nada, confuso e amedrontado.
-Você o matou?
-Cale-se!
 
Ele acariciou o rosto do menino, sorrindo e eu tive mais medo dele depois disso. Eu não conseguia lembrar do nome dele. Eu estava cansado e precisava dormir. Tudo parecia doer cada vez mais. Fechei os olhos e demorei a abri-los outra vez. Olhei para o lado onde ele estivera, mas ele havia se afastado. Havia apenas o corpo do menino, apoiado contra a parede.
 
Ele ergueu minha cadeira, de repente, e eu me assustei.
-Eu vou te deixar solto. –ele disse próximo ao meu ouvido. –Mas se você for tentar escapar, reze para dar muito certo antes, ou...eu vou ter que te ensinar de verdade.
 
Balancei a cabeça concordando. Acho que ele cortou a corda que segurava minhas pernas e meus pulsos com um canivete ou algo assim. Ele se afastou e seguiu na direção da porta, saindo logo depois. Esfreguei meus pulsos doloridos, com medo de ficar sozinho ali. A vela ainda estava acesa e eu estiquei o braço para segurar o pequeno pote onde ela estava. Tentei ficar de pé, mas minhas pernas estavam trêmulas. Apoiei-me na cadeira até conseguir ficar parado. Caminhei, lentamente, pelo lugar, descobrindo uma janela com grades que deveria ser no segundo andar de uma casa ou, talvez, no sótão.
 
Caminhei um pouco mais, sentindo minhas pernas doerem, mas não quis ficar parado. Descobri um pequeno banheiro e considerei tomar banho, apesar de ter que vestir a mesma roupa e de não me agradar à idéia de usar a toalha que havia ali. Continuei explorando o lugar, nervoso, olhando para os lados como se alguém pudesse pular em cima de mim. Eu sabia que precisava me acalmar. Havia uma pequena chance de escapar agora e tudo que eu precisava era um bom plano. Olhei por sobre o ombro para a parte mais escura do cômodo e antes que olhasse para frente, outra vez, eu caí.
 
Fechei os olhos, sentindo o ar ser posto para fora com força. Eu sabia sobre o que eu havia caído, mas não queria acreditar. Rolei para o lado, observando a figura imóvel. Um arrepio percorreu meu corpo enquanto eu continuava deitado ao lado do garoto morto. Ele tinha só nove anos e estava ali. Morto. Estremeci e estiquei o braço, tocando de leve o rosto dele. Gelado. Deslizei meus dedos em um circulo imaginário na bochecha dele. Tyson, se eu me lembrava bem. De onde será que ele era? Fechei os olhos, ainda com os dedos sobre bochecha gelada dele. Quis chorar, mas me controlei.
 
Desejei saber quantas vítimas ele realmente havia feito. Ele...eu queria saber o nome dele. Eu precisava. Acho que se eu soubesse me acalmaria um pouco.
 
Senti dó daquele garoto e me perguntei de quem ele seria irmão. Porque será que não havia sido divulgado o desaparecimento do menino quando todo o estado estava em alerta para os crimes daquele cara? Abri os olhos e encarei o garoto morto a minha frente. Eu ia acabar daquele jeito, talvez, até mesmo na manhã seguinte. Levantei, rapidamente, decidindo tomar um banho rápido e pensar em um jeito de escapar. A toalha que havia no banheiro era tão fina e, aparentemente, velha que foi difícil me secar com ela. Coloquei minhas roupas, desejando que elas estivessem mais limpas.
 
Fiquei algum tempo parado em frente à janela, observando a rua lá embaixo. Comecei a pensar em um jeito de sair dali. Aquela janela era a única passagem e eu teria que começar por ela.
 
Eu duvidava que eu fosse conseguir passar por aquelas grades, então, eu teria que tira-las. Não estava com sono, já que havia “dormido” quase todo o tempo. Procurei algo para me ajudar com aquelas grades. Não havia quase nada. Sentei-me no chão, em frente à janela de vidro empoeirado e analisei as grades. Eu havia encontrado uma ferramenta estranha de metal que eu já vira na oficina quando estive lá com meu pai. Empurrei o metal contra a base da grade, sentindo o coração acelerar nas batidas.
 
Passei a língua sobre os lábios machucados. Minhas mãos suavam. Derrubei o objeto, causando um pequeno barulho. Droga! Ele iria descobrir assim. Peguei outra vez.
 
A grade não parecia se mover nem um pouco por mais força que eu colocasse contra o metal. Estava desanimando. Se eu batesse contra a grade, talvez, fosse melhor. Senti medo do barulho, mas eu ainda queria sair dali, mais do que qualquer outra coisa. O que pior do que me matar ele poderia fazer? Fechei os olhos e ergui a ferramenta, parando-a no ar. Ele ia ouvir? Será que ele estava longe o suficiente para não ouvir?
 
Fechei os olhos e bati aquilo contra a grade. O som ecoou pelo silencioso sótão e eu estremeci. Por favor...que ele não tenha ouvido. Esperei alguns instantes, com medo de que ele surgisse de repente. Ele não veio. Pensei em tentar de novo, mas o medo dominava. Empurrei o metal contra a base da grade outra vez, mas, novamente, ele escapou das minhas mãos, dessa vez, não caindo no chão e sim indo para frente.
 
Fiquei imóvel assim que ouvi o barulho de vidro quebrando e pude ver a ferramenta no gramado lá embaixo.
 
Escondi o rosto nas mãos, me sentindo péssimo. Eu havia feito umas das piores coisas. Era claro que agora ele saberia que eu havia tentando fugir. Observei, com medo, o gramado cheio de cacos de vidro, mal iluminado pelo poste da rua. Arregalei os olhos ao vê-lo sair de casa, recolher as ferramentas e o vidro algum tempo depois, com ajuda de uma lanterna. Eu estava ferrado. Fechei os olhos e tentei não chorar. Afastei-me da janela quebrada e me encolhi em um canto, próximo a parede, temendo o que viria depois.
 
Foi no instante que ele abriu a porta, parecendo furioso, que lembrei seu nome: Pierre.
-O que você estava fazendo, hã? –ele gritou e eu me encolhi mais. –Você queria chamar atenção de alguém? Queria fugir?
 
Fechei os olhos, me sentindo apavorado.
-Você devia ter pensado muito antes de tentar. –ele disse, algum tempo depois, mais calmo.
 
A calma dele me trouxe uma nova onda de pânico e eu tremia enquanto ele vinha na minha direção. O que ele ia fazer comigo? Ele ia me matar agora? Pierre parou na minha frente e eu fiquei encarando os joelhos dele.
-Levante-se. –estava claro que era uma ordem.
 
Tremendo, eu levantei, evitando os olhos dele.
 
Ele segurou meu braço, puxando-me mais para perto.
-Eu avisei, não é? Eu te disse para ser bonzinho.
 
Fechei os olhos, sentindo as lágrimas escorrerem. Pierre segurou meu rosto com força, me beijando. Senti os dentes dele em meu lábio. Doeu. O beijo foi rápido e violento, com o gosto de sangue misturando-se a saliva. Ele se afastou um pouco e me encarou, ainda segurando meu rosto.
-Eu tentei fazer não ser tão ruim para você. –Pierre disse, baixinho, antes de me empurrar.
 
Eu bati as costas na parede, aumentando a dor que já existia. Pierre virou-se e pensei que ele fosse sair, mas ao invés disso ele voltou-se para mim novamente e me bateu. Um soco no queixo. Meu rosto virou-se com o impacto e eu senti o gosto de sangue acentuar-se na minha boca.
 
Ele me bateu de novo e de novo e de novo. Apenas no rosto, até que meu lábio estivesse cortado o suficiente para ter uma listra de sangue descendo pelo queixo. Doía incrivelmente e eu sabia que não deveria reagir ou tudo apenas pioraria para mim. Ele me bateu no estômago e eu me dobrei, sem ar. Senti o cotovelo dele contra minha coluna e cai. Tudo parecia doer e o gosto de sangue em minha boca era horrível. Tossi, deixando pequenas gotas avermelhadas caírem no chão. Tentei levantar, mas ele me chutou e eu caí. Pierre me chutou por um bom tempo e eu desisti de levantar, apenas me encolhendo no chão e sentindo-o me bater mais.
 
Eu pensei em pedir a ele para parar, mas não achei que ele fosse. Pierre havia realmente me avisado. Desejei que ele me matasse ao invés de me bater. Doía. Era horrível. Desejei ter ficado quieto no canto, sem fazer nada. Ele me chutou na barriga e eu ofeguei. Senti as lágrimas escorrerem.
-Levanta. –ele disse, frio.
 
Talvez ele tivesse cansado de me bater, pensei. Levantei-me, trêmulo e dolorido, apenas para receber um tapa forte no rosto.
-Será que você vai fazer de novo? –ele murmurou, segurando meu rosto sujo de sangue.
 
Senti seu punho contra meu rosto outra vez. Solucei, engolindo a saliva e o sangue com dificuldade.
-Vai? –ele gritou, ainda me batendo.
-Não. –eu respondi, chorando.
 
Eu não imaginei que ele fosse ser tão violento para me ensinar a ser bonzinho. Cai no chão outra vez, sentindo tudo doer e achando que ele fosse parar, mas ele continuou. Ele me chutava, ainda parecendo irritado, mas não era tão forte quanto antes. Fiquei deitado no chão, tremendo, sem protestar.
 
Dor era a única coisa que eu sentia além do desespero. Minhas lágrimas continuavam escorrendo e havia sangue na minha boca, mas não fiz nada para limpa-lo. Fiquei deitado no chão e ele me bateu durante muito tempo.
 
Perdi a noção de tempo. Apenas deixei-o me bater. A raiva dele parecia aumentar a cada segundo, proporcional a minha dor. Eu queria arrastar-me para longe dele e chorar até dormir. Eu queria esquecer cada nova dor em meu corpo e acordar, descobrindo que era apenas um pesadelo. Fechei os olhos, desejando que ele se cansasse, mas não parecia que fosse acontecer.
 
Algum tempo depois eu não o via mais me batendo, apenas sabendo que havia algo causando dor. Minha visão embaciava-se e eu sentia uma náusea estranha. Achei que fosse desmaiar, o que realmente aconteceu, algum tempo depois.
 
Capítulo III:
 
They were born
Eles nasceram
And then they lived
E então eles viveram
And then they died
E então eles morrerram
It seems so unfair
Isso parece tão injusto
I want to cry
Eu quero chorar.
Cemetery Gates – The Smiths
 
Tudo doía quando eu acordei, principalmente meus pulsos.Pisquei, sentindo como se meu olho direito estivesse inchado. Talvez estivesse. Percebi que eu estava de pé, com os braços erguidos, entendendo assim porque meus pulsos doíam. Olhei para cima, vendo a corda que passava sobre uma espécie de armação de madeira cujo nome eu não conseguia lembrar. Meus pés quase não tocavam o chão o que fazia meu peso ser estar sendo seguro por meus pulsos. Percebi que minha camiseta sumira. Tentei me mexer, mas minhas costelas doeram.
 
Abri minha boca e ela ardeu. Meu piercing parecia mais apertado e doía, me dando certeza de que meus lábios haviam inchado. Fechei os olhos por instantes, estremecendo de frio. Deveria estar entrando vento pelo buraco que eu havia feito no vidro. Virei o rosto e encarei meu próprio braço. Havia uma grande marca roxa nele pelo que eu via com a pouca claridade. Eu desejei estar na cadeira outra vez. Minhas costas doíam. Quis dormir, mas sabia que dificilmente conseguiria agora. Onde Pierre estaria? Suspirei, imaginando que ele deveria estar dormindo, cansado depois de me espancar. Porque eu não estava com raiva dele?! Eu sentia apenas medo.
 
Minha cabeça doía. Eu queria sentar. Estar apoiado na ponta dos pés e pendurado era terrível. Pierre deveria saber que seria pior. Ele ainda estava me ensinando a ser bonzinho? Respirei fundo e isso causou uma nova dor no meu abdômen. Desejei estar totalmente vestido, uma vez que estava sentindo frio. Eu estava cansado e dolorido.
 
Meu estômago reclamava de fome e eu precisava ir ao banheiro. Apesar da fome, eu sentia um enjôo que eu tentava controlar. Eu quis estar solto outra vez porque eu não tinha certeza se conseguiria. A dor de cabeça parecia aumentar. Eu estava com medo de que Pierre voltasse. Tossi e um gosto amargo tomou conta da minha boca.
 
Eu achei que ia vomitar, mas não o fiz. Bela cena seria. Meus olhos ardiam. Eu precisava pedir ao Pierre que me soltasse. Fiquei tentando não deixar meus pulsos doloridos demais e a melhor coisa que consegui foi ficar parado, mas ainda assim doía.
 
Eu tinha a sensação de que meus ossos deviam ter se quebrado. Fiquei algum tempo pensando em um modo de me soltar, mas não havia nenhum. Eu estava com frio e queria me mexer para me esquentar, mas fazia a dor aumentar. Acabei dormindo com a cabeça apoiada no braço. Quando acordei meu pescoço doía e o enjôo não havia passado.
 
Percebi que Pierre estava sentado na cadeira a minha frente, me encarando.
-Bom dia. –ele disse, sério.
 
Pisquei várias vezes, tentando engolir a saliva e me livrar do gosto horrível em minha boca.
-Por favor...-eu disse baixinho, tentando não mexer muito os lábios doloridos.
-O que?
-Eu preciso....-fechei os olhos com força.
-Você sabe porque está aí? –concordei com a cabeça. –Você não foi um bom menino.
 
Fechei a boca fortemente, não querendo vomitar em cima de mim mesmo.
-Seus pulsos devem estar doendo. Faz quase 15 horas desde que eu tive que subir até aqui.
 
Fazia tempo demais.
-Eu vou te soltar, porque acho que você já entendeu, não é?
 
Balancei a cabeça, concordando. Eu queria muito que ele me soltasse. Minhas pernas doeram quando eu me mexi.
-Você vai ser bonzinho?
-Vou. –eu disse, em tom de súplica.
 
Pierre caminhou até mim e ergueu-se na ponta dos pés, esticando a mão com uma espécie de faca. Ele cortou a corda e eu cai, incapaz de me apoiar em minhas próprias pernas. A queda pareceu aumentar cada dor em meu corpo.
 
Com alguma dificuldade consegui levantar, não confiando muito em minhas pernas trêmulas. Eu tinha quase certeza que iria vomitar. Cambaleei até o pequeno banheiro, sabendo que ele não me ajudaria. Meus pulsos estavam arranhados e machucados. Parei em frente ao pequeno espelho, observando meus machucados recentes. Meu lábio estava inchado e cortado. Os diversos cortes pequenos nele o deixavam mais vermelho devido ao sangue perdido. A região próxima ao olha estava tão inchada quanto achei que estava. Toquei de leve, sentindo doer. Respirei fundo e dirigi o olhar para o restante do corpo. Havia diversas marcas arroxeadas até onde eu podia ver.
 
Alguns machucados misturavam-se, parecendo ser de uma feita cor azul. Suspirei, sentindo me estômago doer. Aprecei-me para o vaso sanitário, uma vez que minha bexiga parecia prestes a explodir. Precisei apoiar-me na parede logo depois, com as pernas ameaçando não suportar o corpo. Fechei os olhos e desejei não sentir mais aquele enjôo, mas logo depois precisei me inclinar sobre o vaso para evitar sujar o chão do banheiro, com medo do que me aconteceria se eu fizesse.
 
Cada passo ou tentativa de me fazia temer uma possível queda. A única coisa em que eu podia pensar era em como evitar a dor que acompanhava cada movimento. Após tirar a calça e a cueca, liguei o chuveiro e parei embaixo da água morna. Apoiei-me na parede fria. Meu corpo doía. Desejei que o enjôo não voltasse. Meu estômago roncou alto e eu tentei não pensar em comida. Fechei os olhos e encostei minha cabeça na parede. Eu devo ter desmaiado no chuveiro.
 
Acordei deitado numa...cama? Abri os olhos, apavorado. Eu estava deitado em uma cama de madeira com um colchão fino o suficiente para que eu sentisse o estrado. Percebi que estava usando uma camiseta larga e...nada mais. Sentei-me na cama, tonto e com medo.
 
Deixei-me cair contra o colchão, sentindo as costas reclamarem de dor. Esfreguei os olhos. Ainda estava com fome. Meus braços pareciam incrivelmente pesados.
-Tem comida na mesa.
 
Ergui meus olhos e vi Pierre, encostado na parede ao lado da cama.
-Eu não vou vir aqui por uns dois dias. Se você for tentar fugir, espero que você consiga.
 
Ele parecia completamente sério. Não ousei dizer que depois do que eu havia passado, dificilmente teria coragem para tentar fugir novamente.
 
Pierre me encarou. Eu ainda estava deitado. Ele me olhava se cima para baixo e eu me senti mal. Ele não sorriu nenhuma vez e eu senti medo de quão irritado ele ainda estaria. Encolhi-me sob o lençol fino. Pierre se afastou da parede e caminhou até a porta. Ele saiu e fechou a porta, mas não ouvi o barulho da chave trancando-a. Vire-me na cama e sentei-me logo depois. Tudo parecia dormente e pesado. Obriguei-me a ir até a chegar até a mesa onde ele disse que havia algo que eu pudesse comer. Sentei-me na cadeira que havia me dedicado a odiar nos últimos dias. Dias...Quanto tempo fazia? Minha cabeça doía enquanto eu mastigava um pedaço de pão e olhava o cômodo escuro, tentando perceber o que havia sido mudado. Aquela cama não estivera ali todo o tempo. Eu não conseguia me lembrar dela. Procurei, com os olhos, o garoto morto, mas ele não estava mais deitado no chão como antes.
 
Suspirei, encostado contra a cadeira. Passei os olhos pelo local. A corda que estivera segurando meus pulsos continuava pendurada no meio do quarto. A janela gradeada havia sido tapada com tábuas. Suspirei. Voltei para a cama e me deitei. Dormi.
Quando acordei outra vez, Pierre não estava ali. Ele realmente parecia ficar algum tempo longe. Eu estava melhor, apesar de tudo ainda doer. Havia uma vela e fósforos sobre a mesa. Acendi e caminhei pelo sótão. Fui até a porta e tentei abri-la, descobrindo-a aberta. Estranhei e estremeci, apavorado outra vez. Passei pela porta, com medo, deparando-me com uma escada.Desci. Havia um longo corredor e algumas portas fechadas. Não verifiquei se elas abririam. Caminhei por todo o corredor, até chegar em uma outra porta. Tentei abri-la, mas não obtive sucesso. Voltei para as outras portas.
 
Não parecia perigoso abrir algumas portas. Ok. Eu estava apavorado, mas eu queria saber o que havia ali. Abri a primeira porta e era apenas um quarto de hóspedes. Parecia ser, mas não havia uma casa e sim um sofá. Eu poderia dormir ali talvez. Abri o armário encontrando toalhas e lençóis. Achei um edredom em uma prateleira e travesseiro em outra. Pensei em usar aquelas coisas, mas se o Pierre voltasse e não gostasse, eu teria problemas. Sai do quarto e fechei a porta. Abri a da frente dela. Era um quarto normal. Parecia infantil, mas estranhamente tudo estava encaixotado. Caminhei pelo quarto tentando encontrar algo. Tudo que achei foi um porta-retratos.
 
Era Pierre. Pierre e um garotinho. Pierre e Tyson! Arregalei os olhos e pus o porta-retratos de volta onde o tinha pegado. Eu estava nervoso. O que ele era do Pierre? Meu corpo estava doendo. Talvez eu não devesse ter levantado. Voltei para o sótão devagar, sentindo-me mal. Deitei na cama e fiquei, apavorado, tentando dormir. Algum tempo depois consegui dormir. Quando acordei as dores tinha diminuído um pouco, mas não desaparecido. Pensei em descer outra vez e procurar um relógio, mas desisti da idéia. Fiquei na cama quase todo o tempo, levantando apenas para ir ao banheiro ou comer e beber o que Pierre havia deixado na mesa.
 
Dormi por bastante tempo e não sai mais do sótão, com medo do que poderia me acontecer. Eu havia ficado ainda mais amedrontado após ver aquela foto. Ficar apenas naquela parte da casa também me deixava nervoso. Mas o que mais me deixou nervoso foi acordar outra vez, amarrado por aquela corda presa no teto. O que eu havia feito dessa vez? Pierre estava sentado em uma cadeira a minha frente. Ele estava tão sério quanto no dia em que saíra.
-Que bom que você não tentou nada.
 
Meus machucados estavam melhores. Alguns roxos já haviam sumido depois desses dois dias, eu supunha que foram dois dias. Meu lábio ainda estava machucado, mas desinchara bastante.
-O que eu fiz de errado?
 
Ele riu.
-Não funciona assim, David. Não é como se você ganhasse prêmios por bom comportamento. –ele disse, parecendo divertir-se, e eu estremeci.
-Mas...porque assim?
-Por que eu quis, sabe? Achei divertido te ver assim.
-Divertido?
-Eu gosto do modo como você parece se desesperar.
 
Capítulo IV:
 
Crash into my arms
Caiu em meus braços
I want you
Eu quero você
You don’t agree –
Você não aceita
But you don
’t refuse
Mas você não recusa
Jack The Ripper – The Smiths
 
Aquilo me fez ficar ainda mais nervoso e amedrontado. Meus lábios se entreabriram, mas eu não disse nada. Pierre sorria e eu desejava que ele voltasse a ficar sério. Umedeci os lábios com a língua.
-Você desceu. –ele me informou, com calma.
-Ahn?
-Você saiu do sótão. -Olhei para o chão.- Você mexeu no porta-retratos.
-Desculpa. –murmurei, baixinho.
-Aquele era o quarto dele. –Pierre disse, levantando-se.
-O que ele era seu? –perguntei, baixinho.
-Ele era meu irmão. –ele disse, calmo.
 
Pierre parou na minha frente e eu estremeci, apavorando-me outra vez.
-Como ele morreu? –arrisquei perguntar, mas Pierre não respondeu.
 
Ele apertou os lábios e me olhou com, acredito eu, raiva.
-Desculpa. –eu murmurei.
-Desculpar é dar permissão para fazer de novo. Eu não quero mais ouvir essa pergunta David. – senti a mão dele chocar-se contra o meu rosto.
 
O tapa foi forte e fez meu rosto doer outra vez. Choraminguei baixinho, pedindo para ele não me bater mais. Eu tinha medo que ele fizesse como no dia da minha tentativa de fuga, mas ele não parecia querer me bater. Pierre tinha um estranho sorriso nos lábios. Ele segurou me queixo, pressionando a ponta dos dedos contra a pele e mantendo meu rosto no lugar. Senti os lábios dele tocarem os meus. O beijo foi rápido e quase violento. Ignorei a dor que eu sentia para mover os lábios e acompanha-lo. Ele segurou meu lábio inferior entre os dele, sugando-o e passando os dentes por ele.
 
Teria sido bom se a região do piercing não estivesse bastante machucada.
-Você é realmente lindo. –ele murmurou, acariciando minha bochecha.
 
Pierre estava na minha frente, me encarando enquanto eu ficava cada vez mais envergonhado e apavorado. Senti a mão dele na minha cintura, sobre a camiseta quase suja que eu havia encontrado em um dos quartos no dia anterior. Era tudo que eu vestia, uma vez que não sabia onde estavam minhas roupas. Ele apertou minha cintura e eu ofeguei, mais de dor que de qualquer outra coisa. Pierre sorriu e beijou meu pescoço. Eu estremeci, querendo chorar. Senti a mão dele descer da minha cintura e ir parar na minha coxa, puxando-a para cima de modo que ficasse ao lado de seu corpo. Arregalei os olhos, com mais medo do que já estava, desejando que minha imaginação estivesse indo longe demais ao supor o que ele ia fazer.
 
Pierre apertou minha coxa me fazendo soltar um ruído de dor. Mesmo que alguns machucados já estivessem melhores, era bastante doloroso tê-lo apertando algumas partes do meu corpo. Ele me puxou mais para perto, colando seu corpo ao meu. Meu medo aumentava a cada segundo. Pierre me beijou outra vez e eu me obriguei a corresponder. Minha bochecha estava dolorida do tapa. Ele puxou mais minha coxa contra o próprio corpo. Outra vez seus lábios desceram para o meu pescoço e sua mão soltou minha perna, subindo outra vez para a cintura e deslizando sob a camiseta larga.
 
As mãos dele subiram sob a camiseta, tocando minha pele com a ponta dos dedos. Fechei os olhos, desejando que ele não ficasse irritado por eu estar chorando. Ele apertou meus mamilos entre os dedos, causando uma nova dor por alguns segundos. Eu estava envergonhado por estar quase nu uma vez que ele havia erguido a camiseta. Senti as mãos dele se afastarem e, com horror, observei-o abrir a calça e abaixa-la junto com a cueca. O pânico tomou conta de mim, mas, ao invés de reagir, fiquei ainda mais parado. De que adiantaria uma reação agora? Ele ia me bater tanto quanto antes e me deixar ali, amarrado, por sei lá quanto tempo. Engoli os soluços e tentei ser discreto com as minhas lágrimas. Eu tinha medo de qualquer reação dele. Eu tinha medo de apanhar outra vez.
 
Pierre me beijou outra vez e fechei os olhos apertados, como se não ver me fizesse não sentir. A mão dele desceu outra vez para minha cintura me puxando para perto, uma vez que, inconscientemente, eu estava tentando me afastar. Ele apertou minha cintura, declarando em silêncio que não gostara do meu movimento. Meus pulsos doíam e eu sabia que a pele já machucada devia estar sendo ainda mais arranhada. Tentei segurar a corda para conseguir me “apoiar” em algo, mas ela escapou das minhas mãos. Pierre continuava me beijando enquanto minhas lágrimas desciam, silenciosas, pelo meu rosto, deixando o beijo com um gosto salgado. Senti-o morder meu lábio, fazendo com que o lábio doesse muito. Abri os olhos ao senti-lo quase acariciar as minhas costas. Pensei no meu namorado.
 
Eu estava com ele há quase sete meses. Faríamos sete meses juntos no dia do aniversário dele. Eu já havia dormido na casa dele duas vezes, mas nunca passamos de...hum...bem...nunca chegamos a realmente transar. Íamos fazer isso quando completássemos sete meses. Pelo menos eu estava me preparando para isso, uma vez que só não tínhamos feito nada porque eu estava inseguro e ele não quis pressionar o virgenzinho aqui. Agora eu nem teria oportunidade para fazer isso. Senti as lágrimas aumentarem. Pierre segurou minha coxa e ergueu-a outra vê, puxando-me e fazendo com que eu quase me desequilibrasse.
 
Tentei afastar meu namorado, Seb, dos meus pensamentos. Eu havia dito ao Pierre que não havia ninguém. Eu queria pensar que não havia. Só ia doer mais pensar nele agora. Pelo rumo que a situação tomava eu nem poderia ter minha primeira vez com ele. Talvez, eu nunca mais pudesse vê-lo. Ofeguei, tentando não tornar meu choro muito audível. Pierre apertou os lábios contra os meus e passou a mão por minha outra coxa, puxando como fizera com a primeira, praticamente, me pegando no colo. Estremeci de medo e dor antecipados. Senti a mão dele afastar minhas nádegas e “algo” ser forçado contra mim. Fechei os olhos, ainda chorando. Ele não foi delicado ao se empurrar para dentro de mim, me causando dor e, sem que eu pudesse me controlar, me fazendo gritar por isso.
 
Ele parou, respirando rápido contra meu pescoço, apenas esperando que meus músculos parassem de aperta-lo tanto, já que seria doloroso para ele continuar agora. Fechei os olhos, tremendo de dor. Pierre não reclamou pelo meu grito. Talvez ele estivesse ocupado demais para percebe-lo. Meus olhos estavam cheios de lágrimas novamente e eu não fazia mais questão alguma de esconde-las. O medo ainda era grande, mas não parecia poder se tornar pior. Pelo menos, eu penava que não até ele começar a se mover. Foi como se estivessem me rasgando ou tentando arrancar a minha pele. Eu gritei no primeiro movimento, recebendo um beslicão na coxa por isso.
 
Apertei os lábios, mordendo-os cada vez que a dor parecia aumentar. Pierre não se importava muito com isso, mexendo-se cada vez mais rápido. Doía. Tentei não pensar em Seb para, caso eu sobrevivesse, não associar aquilo a ele. Como eu queria ter feito isso com ele. Eu tinha planejado de um jeito tão diferente, mas não fazia diferença agora. Tentei desviar meus pensamentos da dor horrível que cada movimento dele me causava, mas não conseguia. Minhas lágrimas continuavam escorrendo. Eu continuava mordendo meu lábio, desejando não gritar mais.
 
Ele continuou se empurrando contra mim, cada vez mais rápido, cada vez mais doloroso. Eu tinha certeza de que meu lábio estava cortado pela força que eu usava para me impedir de gritar. Ele continuou até atingir seu orgasmo sem que eu se quer houvesse sentindo algum prazer. Pierre saiu de dentro de mim e isso também doeu.
Ele soltou minhas coxas e eu fiquei em pé bruscamente, puxando meus pulsos contra corda enquanto ele se apoiava em mim. Após algum tempo, ele esticou o braço e desamarrou a corda. Eu cai, ainda chorando por causa da dor.